Friday, July 03, 2009

risco

Não quero a facilidade de uma vida triste!
Prefiro as agruras de uma felicidade inusitada...

Tuesday, May 19, 2009

ofício

"O poeta lírico não produz coisa alguma. Ele abandona-se literalmente (Stimmung) à inspiração. Ele inspira ao mesmo tempo clima e linguagem. Não tem condições de dirigir-se a um nem outra. Seu poetar é involuntário. Os lábios deixam escapar o 'que está na ponta da língua'.
(...)
O poeta lírico escuta sempre de novo em seu íntimo os acordes já uma vez entoados, recria-os, como os cria também o leitor. Finalmente reconquista o já perdido encantamento da inspiração, ou dá, pelo menos um cunho de involuntariedade à sua obra, como o fazem também muitos poetas de épocas decadentes, herdeiros deste legado útil."

(Joseph Staiger)

Monday, May 18, 2009

uma desconhecida

Às vezes acho que meu verdadeiro "eu" se perdeu.
Às vezes acho que morreu.
Outras vezes que nunca existiu.
Mas há momentos em que uma coisa extremamente pesada, disforme e inadequada me sufoca.
E ela me dói num âmago que suspeito como essência.

E me dá medo.

Monday, May 11, 2009

dúvida

se a pena toca a verdade do silêncio
dando-lhe ares de bando em revoada

porque insistir em gaiolas trancadas?

(há levezas que aterram o espírito...)

Wednesday, April 29, 2009

da ausência

quando a vida fez-se ouvir
e os matizes verteram intensos
os dedos sossegaram
e a palavra se guardou


não há mistério nisso
ou recusa


há uma beleza quieta
de quem abriu os ouvidos à música
e cantou


as palavras não morreram,
apenas estão descansando
deram espaço às aves selvagens
que com vôo bailado
rabiscam traçado novo


as palavras sempre voltam,
mas precisam de algo pra refletir...


***


Quando estudei a escrita diarística e autobiográfica, li um teórico que dizia que quem vive não tem tempo pra escrever. Não concordo completamente com ele, porque a escrita normalmente nasce de uma reflexão, e esta se dá sobre algum aspecto da vida, não?
Contudo, meus versos nunca foram sobre satisfação e alegria, ou serenidade. Escrevo sobre o que perturba. Sobre aquilo que causa síncopes, aquilo que choca, que desestabiliza. Não sei por quê. É assim que funciono.
Contudo, o momento presente não está me dando matéria poética, porque minha alma está assentada. E quando tento escrever sem reflexão profunda, sai uma coisa pobre e artificial.
Portanto, estou aproveitando esse hiato pra descobrir aspectos novos na vida e, claro, refletir sobre eles.
Também quero desenvolver uma poética menos ritmada, rimada. Sinto que fiquei presa em redondilhas estragadas.
Peço desculpa a todos!
Mas eu volto...

Tuesday, March 17, 2009

denúncia


abaulado em frescor de lírio
paira um alento
ah, que lento
e risca um mistério
na superfície da pele
quieta

vai seduzi-la ao arrepio
(segredo)
beijar-lhe cicatrizes antigas
louvá-la por maduras resistências


e ela, brilhando em penugem gracejante,
se ri, treme,
caçoa sanguínea do fascínio despertado

:é manta calejada ,
de rubores inconfessados,
mas se acusa indefesa -
latência que não se acostuma.

Saturday, February 21, 2009

Dual


é dual o abraço que te espera

vem da fera besta insandecida

que dilacerava as eras


sobe um monte verde que transforma

veste a cinta firme

que transtorna

desola

e oculta

a sede venenosa da serpente

que se enrola


em manto inofensivo de cordeiro

precisa alinhar

o bailar das borboletas

com a linha do horizonte

fazendo-se fera adormecida

domada

dual


de um sacrifício maior que a beleza do crepúsculo

desiste

baixa a cabeça às circunstâncias

num polido abraço

dual

sofrido, mas dual

porque do alto.